O porquê de uma nova tradução

(Texto apresentado no evento de espiritismo nas Faculdades COC de Ribeirão Preto, no dia 29 de Maio de 2010)

 

Senhor!

Dono das panelas e marmitas!

Não posso ser a santa que medita aos vossos pés

Não posso bordar toalhas para o vosso altar

Então, que eu seja santa ao pé do meu fogão...

Que o vosso amor esquente a chama que eu acendi

E faça calar a vontade de gemer a minha miséria...

Eu tenho as mãos de Marta

Mas quero ter também a alma de Maria

Quando eu lavar o chão

Lavai, Senhor, os meus pecados...

Quando eu puser na mesa a comida

Comei também, Senhor, junto conosco...

É ao meu Senhor que eu sirvo

Servindo a minha família...

 

SENHORAS E SENHORES:

Quanta simplicidade nesta "Oração de uma camponesa de Madagascar". E sabemos que é na simplicidade que residem as grandes almas. Ao recebê-la fiquei altamente tocado pela mensagem simples e humilde, e instantaneamente tive a intuição de colocá-la nesta minha apresentação da nova tradução d´O Livro dos Espíritos.

Muitos dirão: porquê uma nova tradução, quando existem algumas, consideradas até, consagradas e intocáveis? Serão mesmo? Como dizia Charlie Chaplin: "Não devemos ter medo dos confrontos, até os planetas se chocam, e do caos nascem as estrelas"... Da mesma maneira que a ciência evolui embasada nos conhecimentos adquiridos, acreditamos que o uso da palavra articulada ou escrita, como meio de comunicação, evolui também em função dos costumes e do desenvolvimento de cada época. Assim, inserido na lei do progresso, intrínseca à essência do próprio espiritismo e com as avançadas ferramentas eletrônicas ao nosso dispor, em paralelo com a moderna linguagem, acred támos que poderíamos desenvolver um trabalho adequado à atualidade linguística e substantiva das obras de Kardec, focalizando a simplicidade e a clareza dos seus textos.

Solicitada autorização à espiritualidade, foi-nos dito que tudo que seja feito para melhoria e aperfeiçoamento será sempre bem vindo. Nascia assim este nosso projeto. Reconheço que qualquer trabalho de tradução precisa ser avaliado no seu conjunto, e isso não poderá ser feito sem que haja uma leitura, na íntegra. Só assim poderemos ter um juízo de valor da obra. Felizmente, todos aqueles que já tiveram a curiosidade e a humildade de a lerem, foram unânimes em ressaltar o salto de qualidade.

Não obstante, darei a seguir alguns exemplos de alterações pertinentes a um contexto lógico de ideias e princípios, em linguagem contemporânea:
Primeiramente, citarei algumas palavras muito usadas nos textos espíritas, seguidas do respectivo sinônimo: abnegado - desprendido; devotamento - dedicação; indulgente - tolerante; benevolente - bondoso; negligente - descuidado; ; clemência - perdão; iniquidade - maldade; ignomínias - maus tratos; anátema - maldição; iníquo - perverso. Será que o significado destas palavras ficará alterado com os sinônimos mais conhecidos de hoje? Por exemplo, será que todos conhecem o significado da palavra "Prolegômenos"? Pois, ouvi muito boa gente dizer que nunca se tinha dado conta em saber o que queria dizer essa palavra. De fato, eu também desconhecia, mas tive curiosidade em saber, o que não foi fácil, uma vez que só se encontra nos dicionários mais "gordos". Então, se não é usual no nosso vocabulário, porquê insistir nela, quando a maioria das pessoas sequer tem o dicionário que contém esse vocábulo? E outros sequer têm a sensibilidade de procurar conhecê-lo, ficando por isso mesmo. Se o substituirmos pela frase "Exposição Preliminar", não dará mais sentido ao texto que se lhe segue? Confesso que desde o início do meu trabalho tinha substituído essa palavra por um outro sinônimo, não exatamente o que agora proponho. Contudo, a ironia permanente de um confrade quando se aludia a esse assunto, e o receio de descaracterizar o que está arraigado no imaginário de muitos, levou-me a repor tal palavra. Porém, em nova edição estará fadada à aposentadoria...

Prosseguindo no Livro dos Espíritos, Livro Segundo, cap. III, constata-se em todas as traduções vigentes, pois parecem a cópia uma das outras, "Retorno da vida corporal à vida espiritual". O que se depreende desta frase, no meu entender, é o regresso do corpo à vida espiritual, o que não é correto, como todos sabem. Eu sei que os mais capacitados e aquinhoados de conhecimento, entendem que é o espírito que regressa à vida espiritual, mas os menos capacitados não vão entender isso de imediato, podendo causar certa perturbação, ou então passam em frente sem a preocupação do aprofundamento. Por isso eu acho que se for substituída pela frase: "Regresso dos espíritos ao mundo espiritual", terá um entendimento imediato. No mesmo capítulo temos o seguinte item: "separação da alma e do corpo"; um tanto confuso o seu entendimento; não será mais correto dizer: "Desvinculação da alma pela morte do corpo"?

No cap. IV aparece-nos a "Justiça da reencarnação": não está em causa a justiça ou injustiça da reencarnação, mas os motivos que levam a ela, que é muito mais lógico; então por que não dizer simplesmente: "Os motivos da reencarnação". Igualmente no mesmo capítulo temos o item: "Sorte das crianças após a morte", não será mais perceptível dizer: "O destino do espírito das crianças após a morte"?

No cap. VI que tem como título: "VIDA ESPIRITUAL", pergunto eu, de quem? Penso que seja mais correto dizer: "A VIDA NA ESPIRITUALIDADE". No mesmo capítulo, temos o item: "Relações de além-túmulo", pergunto novamente, relações entre quem, e de que tipo? Penso ser mais correto dizer: "Relacionamento entre os espíritos no além-túmulo". Ainda no mesmo capítulo, temos o item: "Comemoração dos mortos", esta é daquelas frases que não se vislumbra o verdadeiro sentido, pois depreende-se que são os mortos que vão fazer a comemoração, o que não corresponde à verdade, pois somos nós que fazemos essas comemorações. Então, por que não dizer: "Comemoração do dia dos mortos".

No cap. VII, cujo título é: "RETORNO À VIDA CORPORAL", não é mais apropriado dizer logo: "A REENCARNAÇÃO". Do mesmo modo temos: "Prelúdios do retorno" substituído por: "Preparativos para a Reencarnação"; "União da alma e do corpo", substituído por: "União entre a alma e corpo", e no último item deste capítulo: "Simpatias e antipatias terrenas", constata-se que se trata também dos espíritos; então acho que colocando apenas "simpatia e antipatia", atribui-se-lhe um significado abrangente, isto é, tanto na vida corporal ou espiritual.

No cap. VIII, temos a famosa "Emancipação da alma". Sabemos que "emancipar" pressupõe que algo ou alguém atingiu a maioridade. Que eu saiba, a alma ou espírito, não tem uma data limite para atingir a maturidade. Essa colocação é inadequada, pois é mais correto dizer: "libertação da alma", como está implícito na própria resposta da perg. 400, ou seja, se o espírito quando encarnado aceita sem restrições a sua nova existência no envoltório carnal, e os espíritos responderam: o espírito aspira sempre à libertação... Por incrível que pareça, acabo de ler um livro intitulado: "O que dizem os espíritos sobre o aborto", da FEB, 3ª edição, pág. 201, que vem precisamente ao encontro do meu raciocínio, e que transcrevo na íntegra: "Qualquer das criaturas de Deus, tem o direito de candidatar-se à condição de pedra-de-tropeço ao progresso e à felicidade planetária, mas nunca se desobrigará de sofrer as consequências naturais de seus erros, colhendo os resultados da semeadura que haja feito. E encerramos estas modestas considerações sobre o aborto provocado, recordando que o que se forma por ocasião da concepção é o começo de um corpo físico, e não o ser espiritual que o vai animar. Este é espírito em processo permanente de evolução, cumprindo simplesmente a Lei divina dos renascimentos até alcançar a plena purificação". Como se constata, não há menção a qualquer tipo de emancipação. No item a seguir temos: "visitas espíritas entre pessoas vivas", acho mais correto dizer: "visitas espirituais entre encarnados", e, para finalizar este capítulo, deparamo-mo-nos com a "Transmissão oculta do pensamento", substituída por: "Transmissão do pensamento entre espíritos encarnados".

No cap. XIX, temos o item: "Penetração dos espíritos em nossos pensamentos", e achamos mais correto dizer: "Intervenção dos espíritos no nosso pensamento". O item a seguir diz: "Influência oculta dos espíritos em nossos pensamentos e atos", substituída por: "Influência dos espíritos nos nossos pensamentos e nas nossas ações"; no item: "Possessos", acho que ficará melhor "Possessão"..., muito mais abrangente.

No Livro Terceiro, cap. II, aparece o item: "Adoração exterior", de quem? pergunto eu; acho mais correto dizer: "Manifestação exterior da adoração".
No cap. V, encontramos o item: "Gozo dos bens terrenos", particularmente, acho a palavra "gozo" inadequada no âmbito espírita; por isso, dizendo  simplesmente "Prazeres terrenos" é muito mais objetivo e prático.

No cap. VII, intitulado LEI DE SOCIEDADE, entendo que atualmente "LEI DE SOCIABILIDADE", será muito mais lógico, racional e de acordo com o verdadeiro sentido da palavra.

No cap. VIII, deparamo-nos com o item: "estado de natureza", quando é mais correto dizer: "estado natural".

No cap. IX , no item: "Desigualdade das aptidões", que não é a mesma coisa se dissermos "Desigualdade nas aptidões", pois, não está em causa a desigualdade das aptidões, mas sim a desigualdade nas aptidões de cada um. O mesmo acontece com a "Desigualdade das riquezas", que não é a mesma coisa se dissermos: "Desigualdade na riqueza". O mesmo acontece com: "Provas da riqueza e da miséria", muito diferente de: "Riqueza e miséria ? provações", mais de acordo com o assunto em questão. Interpretem bem a frase: "Igualdade dos direitos do homem e da mulher", e vejam se não é mais adequado dizer: "Igualdade dos direitos no homem e na mulher", e para finalizar este capítulo, atentem na frase: "Igualdade perante o túmulo", se não é mais adequado dizer: "Igualdade no túmulo".

No cap. X, vejam se alguém consegue aperceber-se de imediato do sentido da frase: "Resumo teórico do móvel das ações no homem", não será mais perceptível dizer: "Resumo teórico da força geradora das ações no homem"? Achamos que sim.

Prosseguindo no Livro Quarto, cap. I, intitulado "PENAS E GOZOS TERRENOS", como já atrás observámos o sentido inadequado da palavra "gozos", achamos muito mais apropriado dizer: "PUNIÇÕES E PRAZERES TERRENOS". A seguir temos o item: "Felicidade e infelicidade relativas", mas não diz de quem; então entendemos atribuir uma forma mais abrangente, dizendo simplesmente: "Felicidade e infelicidade". A seguir temos: "O temor da morte", julgamos que a palavra "temor" tem um significado aterrador e achamos não haver necessidade para tanto, dizendo simplesmente: "Medo da morte".

O cap. II
intitula-se: "PENAS E GOZOS FUTUROS", conforme já mencionei os motivos inadequados da palavra "gozos", parece-nos muito mais apropriado dizer apenas: "PUNIÇÕES E RECOMPENSAS". Do mesmo modo "Intuição das penas e gozos futuros" por: "Intuição das punições e prazeres futuros". Igualmente em: "Natureza das penas e gozos futuros" por: "Natureza das punições e prazeres futuros". Por fim temos o item: "Penas temporais", substituído por: "Punições terrenas".

Estas são as alterações mais significativas que, sem modificarem o sentido do texto original, achamos darem mais ênfase e melhor entendimento. Além do mais, a nossa preocupação maior, consistiu sempre em redigir de maneira que houvesse uma maior percepção para os menos letrados e, ao mesmo tempo, motivadora aos de grau acadêmico superior.

Numa época em que a conquista da livre expressão do pensamento é tida, e com razão, em tão alta estima, não concebemos que nas correntes do espiritismo, a doutrina de maior lucidez da razão existencial, subsistam entidades ou personalidades inibidoras da divulgação do nosso trabalho. Não concebemos no espiritismo a existência de pseudo censores de obras e publicações espíritas. Ninguém foi incumbido dessa tarefa pela espiritualidade. Não podemos ser julgados pelos nossos iguais, moral e intelectualmente. Os únicos juízes na Terra serão o grande público em geral e o plano espiritual superior, quando regressarmos à espiritualidade. É no espiritismo que melhor aprendemos o que é o livre-arbítrio. É também o espiritismo que ensina sermos os únicos responsáveis pelas nossas vidas e, como tal, colheremos sempre de acordo com o que plantarmos.

Ninguém pode considerar-se verdadeiramente espírita sem ter lido e compreendido as obras de Kardec. Por isso consideramos de suma importância, disponibilizá-la e disseminá-la pelos quatro cantos deste vastíssimo país.

Está mais do que na hora em seguirmos a orientação de Emmanuel, quando disse que a melhor caridade que se pode fazer pelo espiritismo é a sua divulgação. Não nos percamos em querelas intestinas e desnecessárias, e retóricas sem fim, envolvendo a temática científica, filosófica e religiosa da tese espírita, quando o nosso irmão do lado requer a nossa ajuda e o nosso conforto; quando grassa tanto desequilíbrio no mundo que nos cerca; tantos desmandos; tanta promiscuidade, prostituição, corrupção e marginalidade; tanta fome e miséria; tanta irresponsabilidade; tanta falta de amor e tanta banalidade nas relações familiares, tirando-se a vida de um ser humano com a maior frieza e tranquilidade. Quem sabe que a palavra de convicção da vida após a morte e a certeza de que não se fica impune às atrocidades cometidas, seja simplesmente o suficiente para que não se consuma um ato irrefletido prestes a acontecer.

Temos em nossas mãos a maior ferramenta de esclarecimento e persuasão da razão existencial, que é o espiritismo. Porém, mais importante do que isso, é a nossa postura moral e de princípios. Façamos um esforço de coerência nas nossas atitudes e comportamentos. Saibamos aproveitar a soberana oportunidade, fazendo do espiritismo a doutrina de maior grandeza no horizonte doutrinário e religioso, dando assim, um valioso contributo para o apaziguamento das grandes tensões vivenciadas no mundo contemporâneo, ao nível de famílias, sociedades e nações. O espiritismo não se compadece com sentimentalismos ou personalismos de quem quer que seja. O contributo próprio de cada um para a sua difusão será sempre de grande valia, sobretudo, para o seu próprio aprimoramento. Elevemos o espiritismo ao lugar de destaque que ele merece e justifica.

Sejamos fiéis aos verdadeiros ideais espíritas, renovando-nos e aperfeiçoando-nos constantemente, e, para isso, a obra de Kardec será sempre o roteiro dessa trajetória, a bússola orientadora, cujo conteúdo jamais deixará de ser atual. Com efeito, a sua obra será para todo o sempre um marco imorredouro na história do existencialismo e, como tal, deverá constar sempre dos livros de cabeceira e consulta permanente, dos que escolherem o espiritismo como opção religiosa, ou daqueles que não o sendo ainda, tenham vontade de ampliar o horizonte dos seus conhecimentos religiosos e existenciais.

Dignifiquemos a designação de espíritas!

A palavra esclarece, mas o exemplo arrebata!

É aqui que reside a nossa grande responsabilidade: disseminar tanto quanto possível a mensagem espírita contida no conceito da certeza da vida após a morte, na pluralidade das existências, bem como na lei de ação e reação. As grandes dissertações filosóficas e científicas ficarão por conta da evolução própria de cada um.

Em quaisquer circunstâncias, deverá prevalecer sempre o amor, a caridade, a fraternidade, a solidariedade e a tolerância. Enfim! O respeito mútuo perante as diferenças.

Caminharemos assim no infinito das nossas vidas até à plenitude moral, conquistando o merecimento de participarmos do ministério divino, na infinita obra da criação.
Agradeço a todos aqueles que direta ou indiretamente interferiram no meu processo evolutivo, em particular à Associação Caminhos para o Espiritismo, que desde o início do nosso relacionamento, escancarou-me as portas para divulgação do nosso trabalho; associação essa, que, com muita perspicácia e inteligência promove a "discussão" fraterna das diferentes correntes de opinião, e cuja postura é intrínseca aos verdadeiros pressupostos espíritas.

Façamos do espiritismo, não a doutrina do futuro, mas a doutrina do presente.

É AO SENHOR QUE EU SIRVO TAMBÉM!

COM AS NOVAS TRADUÇÕES DE ALLAN KARDEC...

ESTUDEMOS E DIVULGUEMOS KARDEC!

MUITO OBRIGADO!

Alberto Maçorano